Quando atendo alguém com diverticulite, meu foco é juntar três peças: sintomas, exames e histórico de crises anteriores. A partir disso, defino se estamos diante de um quadro mais simples, que pode ser tratado em casa com acompanhamento próximo, ou se há sinais de gravidade que exigem internação, antibiótico venoso e vigilância rígida.
Em alguns casos selecionados, principalmente quando as crises se repetem ou surgem complicações, a conversa passa a incluir cirurgia do intestino como forma de reduzir o risco de novos episódios.
O que é diverticulite?
A diverticulite faz parte de um “continuum” da doença diverticular. Tudo começa com os divertículos, pequenas bolsas que se formam na parede do intestino grosso, geralmente no cólon sigmoide. Ter divertículos, por si só, não significa ter inflamação, e muita gente descobre o achado em um exame e nunca terá crise. O problema é quando um ou mais divertículos inflamam ou infeccionam: nesse momento, chamamos de diverticulite.
Minha função na consulta é separar quem tem apenas doença diverticular sem inflamação de quem já está em crise aguda, com dor, febre e alteração do hábito intestinal. Essa distinção muda totalmente o plano: orientação e prevenção em um caso; tratamento ativo, às vezes com internação, em outro.
O que são divertículos?
Os divertículos são como pequenas saliências na parede do intestino grosso, que se projetam para fora da luz intestinal. Eles surgem ao longo do tempo, por uma combinação de fatores como aumento da pressão dentro do intestino, alterações da parede e hábitos de vida. Na prática, são muito comuns em pessoas acima de 50 anos.
Ter divertículos não significa estar doente o tempo todo. Em muitos casos, descubro a presença deles por acaso em uma colonoscopia ou tomografia feita por outro motivo. Nessa situação, o foco é explicar o que isso significa, orientar sobre alimentação, hidratação, atividade física e sinais de alerta que merecem atenção.
Diferença entre diverticulose e diverticulite
Chamo de diverticulose quando a pessoa tem divertículos, mas sem inflamação ativa. Já diverticulite é quando há inflamação ou infecção de um ou mais desses divertículos, com sintomas como dor, febre e alteração das fezes.
Na diverticulose, o acompanhamento é mais preventivo: ajustes de dieta, hábitos e, em alguns casos, avaliação periódica com exames. Na diverticulite, o cenário muda: preciso avaliar gravidade, risco de complicações e necessidade de internação ou até de cirurgia em fases específicas da doença.
Quando ocorre inflamação
A inflamação pode acontecer por diferentes mecanismos, como obstrução da boca do divertículo por fezes endurecidas, mudanças na flora intestinal ou fragilidade local da parede. Nem sempre é possível apontar um gatilho único, mas consigo avaliar quem tem mais risco de complicar: idade mais avançada, crises repetidas, imunossupressão, doenças associadas e atraso na procura por atendimento.
Quando a inflamação se instala, ela pode ficar restrita à parede do intestino ou evoluir para quadros mais sérios, como abscessos, perfuração e inflamação difusa do abdome (peritonite). Por isso, tempo e avaliação adequada fazem diferença.
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Sintomas mais comuns
Os sintomas da diverticulite não são exclusivos dessa doença, por isso a avaliação clínica e os exames são tão importantes. Em consultório e pronto-atendimento, olho para o conjunto: dor, febre, alteração das fezes, mal-estar geral e sinais laboratoriais de inflamação.
Dor abdominal (principalmente no lado esquerdo)
O sintoma mais clássico é a dor abdominal localizada, geralmente no quadrante inferior esquerdo. Ela pode começar discreta e ir ficando constante, com piora ao caminhar, tossir ou apertar a região. Em alguns casos, a dor aparece em outros locais, dependendo da anatomia do intestino e do padrão de inflamação.
Na avaliação, verifico intensidade, tempo de evolução, fatores de alívio ou piora e se essa dor já aconteceu antes. Dor intensa, que piora rapidamente, associada a sinais gerais de gravidade, muda o grau de urgência da conduta.
Febre
A febre é outro sinal de alerta. Em diverticulite, febre persistente, calafrios e mal-estar chamam a atenção para um processo inflamatório ou infeccioso mais importante. Por isso, sempre pergunto se houve medição em casa e em que momento ela aparece.
Quando a febre se mantém mesmo com medidas iniciais ou está associada a dor intensa e alteração importante nos exames de sangue, a tendência é partir para investigação mais aprofundada e, muitas vezes, internação.
Náuseas
Náuseas e, em alguns casos, vômitos podem acompanhar a crise. Eles podem estar ligados tanto à dor quanto a um certo grau de irritação intestinal. Avalio se a pessoa consegue se alimentar, se os vômitos são repetidos e se há sinais de desidratação. Em quadros mais limitados, a náusea responde a medicação e ajuste de dieta; em cenários mais intensos, pode ser mais um motivo para internação.
Alterações intestinais
As alterações do hábito intestinal são frequentes: pode haver constipação, diarreia ou alternância entre as duas. Em alguns casos, a pessoa nota mudança no formato das fezes ou presença de muco. Pergunto sempre se houve sangue nas fezes, se o ritmo mudou de forma brusca e se isso vem se repetindo há muito tempo, porque esses dados podem indicar a necessidade de investigação adicional, inclusive para afastar outras doenças associadas.
Diagnóstico e acompanhamento
O diagnóstico passa por três pilares: história clínica, exame físico e exames complementares. Em muitos casos, a combinação de quadro típico e exame de imagem já é suficiente para definir o plano inicial, sem atrasar o tratamento.
Exames necessários (TC, colonoscopia)
Na fase aguda, o exame que mais utilizo é a tomografia computadorizada de abdome, que ajuda a confirmar a diverticulite, localizar a inflamação, avaliar presença de abscessos, perfuração e líquido livre no abdome. A tomografia também é importante para descartar outros diagnósticos, como apendicite, tumores e doenças ginecológicas.
A colonoscopia costuma ficar para a fase mais tranquila, após a resolução da inflamação aguda. Ela serve para avaliar o cólon por dentro, verificar o padrão da doença diverticular e, em pacientes com mais idade ou fatores de risco, afastar câncer de intestino e outras doenças.
Avaliação da gravidade
Nem toda diverticulite é igual. Avalio a gravidade a partir de:
- Intensidade da dor e tempo de evolução
- Presença de febre persistente
- Alterações nos exames de sangue (como aumento de leucócitos e marcadores inflamatórios)
- Achados da tomografia (se há abscessos, perfuração, fístulas ou obstrução)
Quadros leves permitem tratamento ambulatorial com antibióticos orais, dieta adequada e reavaliação próxima. Já quadros moderados ou graves, com dor intensa, vômitos, dificuldade para se alimentar ou sinais de complicação, pedem internação para antibiótico venoso, hidratação e vigilância contínua.
Riscos associados à diverticulite recorrente
Quando a diverticulite se torna recorrente, ou seja, crises que aparecem e reaparecem ao longo do tempo, o risco de novas inflamações e complicações aumenta. Além do impacto na qualidade de vida, crises repetidas podem deixar o intestino mais rígido, estreitado, predispondo a obstruções ou necessidade de abordagens cirúrgicas mais complexas.
É nessa fase que discuto com o paciente a possibilidade de cirurgia eletiva, planejada com calma, com o objetivo de retirar o segmento mais acometido e reduzir o risco de novas crises. A decisão é individual, ponderando idade, comorbidades, frequência das crises e impacto no dia a dia.
Tratamento da diverticulite
O tratamento varia conforme o estágio da doença, a gravidade da crise e o histórico de cada pessoa. O caminho nem sempre é o mesmo para todos; por isso, personalizo o plano com base nos dados clínicos e de exame.
Tratamento clínico: antibióticos e dieta
Nos casos não complicados, o pilar é o tratamento clínico. Em geral, isso envolve:
- Antibióticos por período definido, quando indicados
- Ajuste da dieta, que pode começar mais líquida ou pastosa e ir avançando conforme a dor e o quadro geral melhoram
- Analgesia adequada e orientações claras sobre sinais de piora
Mesmo em tratamento ambulatorial, recomendo acompanhamento próximo, com retorno programado. Se a dor não melhora, se a febre persiste ou se surgem novos sinais de alarme, reavalio e, muitas vezes, repenso o plano.
Indicações de cirurgia
A cirurgia entra no cenário em algumas situações:
- Crises recorrentes que comprometam a qualidade de vida
- Complicações, como abscessos persistentes, perfuração, fístulas ou obstrução
- Estreitamentos importantes do intestino que prejudiquem a passagem das fezes
Nesses casos, a proposta costuma ser a ressecção do segmento de intestino mais acometido, com reconstrução por anastomose quando as condições permitem. Em alguns cenários, pode ser necessário um estoma temporário para proteger a anastomose ou em quadros muito inflamados; isso é sempre discutido com antecedência, alinhando expectativas e plano de reversão quando possível.
Laparoscopia e cirurgia robótica
Quando a situação permite, priorizo técnicas minimamente invasivas, como laparoscopia e, em casos selecionados, cirurgia robótica. Essas abordagens utilizam incisões menores e visão ampliada, o que pode favorecer a recuperação, com menos dor de parede e tempo de internação reduzido.
Importante reforçar: a escolha da via de acesso nunca é feita apenas pela tecnologia, e sim pela segurança oncológica e funcional. Se, durante o procedimento, percebo que a via minimamente invasiva não oferece a exposição necessária, converter para cirurgia aberta é uma decisão de segurança, não um erro.
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